Passado-Presente-Futuro

Passado
A Segunda Grande Guerra Mundial terminou em 1945. Vivemos, desde então, uma época de relativa paz à escala mundial. Sobretudo na Europa, felizmente não temos tido conflitos globais extremos. Passaram 73 anos. Se exceptuarmos o terrorismo após o 11 de Setembro de 2001 (e os diversos atentados que se seguiram depois), não nos sentimos ameaçados nas nossas vidas de europeus e ocidentais. As diversas guerras e os diversos conflitos noutros pontos do globo parecem-nos distantes e continuamos a nossa vida com um razoável grau de tranquilidade e confiança.
No plano político, temos eleições periódicas e votamos para diversos órgãos de poder. Existem campanhas eleitorais, debates e trocas de opiniões: a democracia parece funcionar em pleno. Temos ainda alguns jornais a que podemos acrescentar diversas estações de rádio, muitos canais televisivos, imensos portais de notícias na internet, blogues, entre muitas outras fontes de informação: a liberdade de expressão parece funcionar em pleno. 
Contudo, esta visão é, já hoje, algo enganadora e a sua continuação pode ser muito perigosa pois, mantendo-se esta ilusão, não conseguiremos encontrar outras formas de resistir e de combater o problema.
E qual é o problema? A democracia está em perigo, a liberdade de expressão está em perigo, a nossa vida de paz, de respeito mútuo e tolerância está em perigo.

Presente
Analisemos apenas alguns sinais óbvios que isoladamente poderiam significar pouco mas que, em conjunto e de forma coordenada, nos fazem pensar. Referirei apenas cinco:
Líderes autoritários e com práticas governativas autoritárias em vários países: Trump, Putin, Erdogan, Salvini,…
Redução da importância da informação de qualidade veiculada por jornalistas profissionais em detrimento de “fake news” espalhadas intencionalmente pelas redes sociais sem controlo nem verificação…
Crescimento eleitoral de forças políticas de extrema-direita radical em diversos países: Brasil, Itália, Hungria, Polónia, Holanda,…
Sucessivo e continuado desrespeito pelos direitos humanos em vários pontos do globo perante a passividade da comunidade internacional ou, no mínimo, sem uma resposta proporcional: desaparecimento (prisão, tortura e/ou assassinato) de jornalistas ou de opositores, genocídio de minorias, rejeição de acolhimento de migrantes, entre muitas outras barbaridades…
Desgaste progressivo do modelo europeu sem que a União Europeia e os seus líderes encontrem novas vias para a reconstrução do ideal europeu de acordo com a sua matriz essencial e original: solidariedade, liberdade, tolerância, desenvolvimento sustentável, paz e um futuro comum.

Futuro
Pensando no futuro, que terá de ser desenhado hoje. Se já não for tarde… Infelizmente, não tenho muitas respostas nem propostas infalíveis. Acredito, contudo, que devemos retomar a essência do que fez de nós, Europeus, o espaço de excelência durante mais de sessenta anos no quadro mundial. Mesmo sabendo que não era uma espaço perfeito. Mas era um espaço que se baseou sempre em princípios de justiça social, de liberdade, de economia competitiva e concorrencial, de igualdade de oportunidades, de acesso à educação e de respeito pelos direitos humanos.
Acredito que, quando tudo o resto falha, devemos começar a reconstrução por algo que nos una a todos. Do meu ponto de vista, trata-se de recomeçar e colocar em prática novos objectivos e novas metas que nos façam voltar a acreditar que (num contexto completamente diferente e com desafios completamente novos em muitas dimensões), como Europeus, a única base possível continuará a ser a que construa uma sociedade de princípios que seja capaz de nos proporcionar a todos uma existência livre, digna, solidária, justa e tolerante.
Exactamente o contrário de (quase) tudo o que assistimos nos últimos tempos… Por isso, temos de agir. E de agir já.
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in Jornal Tornado (15/10/2018)

Justiça/Injustiça

A Justiça é um dos cancros que corroem a nossa democracia. Esta é uma banalidade que ameaça tornar-se trágica pois descredibiliza a situação. São inúmeras as situações em que, como cidadãos, nos sentimos revoltados, ofendidos, enganados ou, simplesmente, humilhados.
A desfaçatez com que alguns conseguem mover-se e brincar com o sistema causa um misto de perplexidade e indignação.
A sensação que dá é que, a justiça não pretende apurar a verdade, castigar os culpados e ilibar os inocentes. Em alguns casos, parece que é possível protelar a prisão, apresentar mais um recurso, provocar mais um incidente, criar mais um obstáculo ou inventar mais um problema processual.
Se fosse tudo com a intenção do nobre princípio da busca da verdade, ainda bem. Mas, o que mais parece é que tudo não passa de uma manobra para a fuga à responsabilidade, para a dissimulação ou o adiamento do cumprimento de decisões dos tribunais.
Armando Vara, Duarte Lima ou Oliveira e Costa já deviam estar presos há muito. Mas, continuam alegremente a gozar com todos nós. E com o sistema judicial português. O estranho não é que desejem ludibriar o sistema. O que é mesmo muito estranho é que ficamos todos com a estranha sensação de que o estão a conseguir com imenso sucesso.
E pior ainda. Todo este cerco à justiça, todo este combate organizado para ludibriar o sistema judicial sob o pretexto de salvaguarda de direitos dos arguidos e de defesa dos direitos dos cidadãos, mais não faz do que virar os cidadãos contra a justiça e os seus actores e, sobretudo, contra os seus processos mais ou menos expressivos na praça pública. Sempre que há um caso mediático, os resultados são (quase) sempre maus (ou muito maus).
Ninguém ganha. E, muito provavelmente, os maiores perdedores somos nós que desejamos uma democracia plena.
Finalmente, uma consequência muito forte e preocupante é simplesmente esta: tanta manobra para conquistar a impunidade, para ludibriar a justiça e para perpetuar o sistema de dois pesos e duas medidas. Numa palavra, o sistema que, em vez de garantir a Justiça potencia a sensação de Injustiça.
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in Jornal Tornado (15/09/2018)

Só quando não houver jornais é que vamos perceber


1
A crise na imprensa escrita é um tema recorrente, pelo menos, nos últimos 15 anos. As responsabilidade foi, normalmente, atribuída à explosão da Internet que oferece notícias a toda a hora (ou minuto, se formos mais precisos…). Outra razão é a que diz que os jornalistas não souberam refundar a imprensa nesta nova fase. Alguns atribuem ainda o problema à falta do poder de compra dos leitores. Finalmente (e sem querer ser exaustivo), também se fala de alterações estruturais no comportamento de compra dos cidadãos (consumidores) e na sua apetência pelo imediato e mais superficial (que a Internet permite) contra o gosto pelo pelo mais profundo e completo.
Não sei qual a razão principal. Não conheço todos os motivos para a diminuição de leitores. O que para mim é claro é que há (pelo menos) dois aspectos essenciais neste tema: uma imprensa livre é condição primeira de qualquer democracia digna desse nome. Depois, ainda hoje é insubstituível o papel e a existência de jornais que não só noticiem mas que aprofundem os temas, promovam a reflexão e estimulem a compreensão da realidade nas suas múltiplas facetas.

2
Logo após o 25 de Abril de 1974, em Espinho (cidade onde eu vivia), havia vários quiosques onde se vendiam matutinos e vespertinos. De memória, lembro-me dos principais jornais no Porto (“Jornal de Notícias”, “Comércio do Porto” e “O Primeiro de Janeiro”) e dos principais de Lisboa (“Diário de Notícias”, “Século”, “Diário de Lisboa”, Diário Popular” e “A Capital”). Sim, num país pobre e com um fraco poder de compra, existiam oito jornais diários.
Ao fim da tarde, quando chegava o comboio, ocorria um fenómeno quase diário: formava-se uma fila junto aos quiosques para comprar o jornal do dia que trazia as últimas novidades que, depois de lidas, eram discutidas à mesa do café.
A imprensa e as suas notícias, as entrevistas, as reportagens marcavam a actualidade. Uma frase surgia, muitas vezes, como argumento final numa discussão: “Olha, podes dizer o que quiseres mas vinha assim no jornal”. E assim, com a credibilidade de uma fonte autorizada se resolviam equívocos, se reforçavam convicções, se construíam ideias e posições.
Ser jornalista era uma profissão respeitável e respeitada. Escrever em jornais era algo de importante, sério e de grande responsabilidade.

3
Passaram quatro décadas. Muita coisa mudou. A começar pelo panorama da imprensa portuguesa. Dos oito jornais que referi, em 2018 apenas um subsiste: o “Jornal de Notícias”. Significativo. Nestes 40 anos, várias foram as tentativas de mudar o mercado da imprensa escrita. Só para falar de diários, recordo o “Portugal Hoje”, o “Notícias da Tarde”, o “Diário”, o “Público” e o “Correio da Manhã”. Destes, só os dois últimos resistem e, curiosamente, o CM é líder de vendas no seu segmento.
A realidade mudou em número de títulos. Mas mudou, ainda mais, no perfil do modelo de negócio e na essência da competitividade do mercado.
Infelizmente, nem tudo o que surgiu foi no melhor sentido nem alcançou melhores resultados.

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Uma das grandes vantagens anunciadas da Internet era a da democratização do acesso a informação mais livre e (tendencialmente) mais barata ou até gratuita. Outra era a da democratização do acesso ao espaço mediático por qualquer cidadão que, de forma livre, podia escrever e ser lido por um número muito grande de pessoas, mesmo que não tivesse meios financeiros para ser dono de um jornal.
Infelizmente, esta salutar utopia não teve sempre os melhores resultados.
Uma das ilusões mais perigosas e absurdas é a do jornalista-cidadão que, sem restrições, consiga participar no espaço mediático substituindo os jornalistas profissionais. Ter acesso fácil a um jornal ou a um blogue não transforma o cidadão que o faz num jornalista profissional. Apenas o transforma em alguém que pode estar presente no espaço mediático. Da mesma forma que, a Internet não nos consegue transformar em médicos só porque há vários espaços de informação sobre doenças, tratamentos ou medicamentos.

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Para mim, um dos prazeres que cultivo desde muito cedo é o da leitura de jornais. Cada vez mais os sinto imprescindíveis para acompanhar o nosso tempo, a sociedade, a política, a economia, a cultura: a vida, numa palavra.
Mas, não posso deixar de estar muito preocupado com o panorama actual: encerramento de jornais; fake news; despedimento de jornalistas (ou extrema precariedade da profissão); predomínio de grandes, poderosos e despropositados operadores/investidores com agendas muito próprias de controle e influência; intromissão descarada em actos eleitorais e escolhas políticas.
Tudo isto são sinais diários de alerta e perigo. Volto ao princípio. Sem uma imprensa livre, não há democracia. Sem jornais de qualidade, quem mais sofre são as pessoas, os cidadãos.
Há meses, um amigo dizia-me: podemos ter uma guerra em breve. Achei exagerado nesse momento. Hoje acho que essa guerra já começou. Está em curso em vários países onde a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa começam a ser seriamente ameaçadas. E o problema pode alastrar.
Mais do que nunca, precisamos de bons jornais, de bons jornalistas e, naturalmente, precisamos de… leitores.
Desde o início desta crónica fiz questão de não entrar na discussão papel/digital. Para mim, o essencial é que haja jornalistas a honrar a sua tradição de “quarto poder”, que haja jornais que os acolham e os deixem trabalhar criando conteúdos de qualidade, sérios, completos, abertos e isentos. Conteúdos que possam ser partilhados no papel, no smartphone, no tablet ou no computador. E que depois possam ser lidos, discutidos e pensados: numa mesa de café, numa viagem de autocarro ou na nossa casa.

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Por agora, podemos encolher os ombros e dizer que não é nada connosco. Ou podemos ler cada vez mais. E, como é cada vez mais óbvio, esses conteúdos terão de ser pagos pois, no actual modelo de negócio, as receitas tradicionais (publicidade) são insuficientes.
Pagar mais para ter melhor informação: esse é o destino dos leitores. Infelizmente, se nada fizermos de concreto, só quando já não existirem jornais é que vamos perceber mesmo a falta que eles nos fazem. Esperemos que não seja já tarde.
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In Jornal Tornado (15/08/2018)

Pelo Regresso ao Espaço Público

1
Vivemos em prédios, isolados embora rodeados de vizinhos que não conhecemos nem sabemos quem são. Estamos cada vez mais sozinhos. Nada disto é novidade num tempo em que partilhamos conversas (ou monólogos?) em redes virtuais com pessoas que dizemos serem nossas amigas mas que, em muitos casos, são meros conhecidos ou nem isso. Trabalhamos isolados em organizações onde estamos horas e horas com colegas que vagamente conhecemos e com os quais interagimos profissionalmente e nada mais.

2
No entanto, o espaço público vai-se transformando: as ruas ou os centros comerciais ganham novos espaços em que nos apetece estar. E essa é uma grande alteração que estamos a vivenciar hoje: alguns espaços comerciais são sítios onde vamos porque queremos estar e interagir com outras pessoas. Os gestores desses espaços perceberam rapidamente que hoje não é só a vontade de comprar que nos move. Vamos a um centro comercial e, por vezes, não compramos nada em especial. Almoçamos, lanchamos ou vamos ao cinema. E há mesmo espaços em que, numa espécie de esplanada interior, tomamos um café e, se temos companhia, conversamos. Sim, a boa velha conversa que nos animava.

3
Infelizmente, nem tudo são boas notícias. Em muitos espaços públicos o elemento preponderante é o omnipresente telemóvel. Podemos perguntar: o que faz o telemóvel numa crónica sobre espaços públicos? Muito. O telemóvel é, cada vez mais, o acessório de que (quase) não conseguimos separar-nos. Olhamos para ele (dizem alguns estudos) mais de 200 vezes por dia. Temos uma dúvida e, em vez de usarmos a memória, consultamos de imediato o motor de pesquisa que nos devolve a resposta certa. Tiramos fotografias. Usamos como guia de viagem. Ouvimos música. E, coisa incrível, até telefonamos... sim, porque é de um telefone que estamos a falar. 

4
Perante esta verdadeira invasão das nossas vidas pelos inevitáveis telemóveis e pelas múltiplas formas de isolamento que vivenciamos dia-a-dia, será que mudou a nossa essência de seres gregários que sempre fomos?
Talvez não... apesar de tudo, sempre que se proporcionam as condições, continuamos à procura de companhia e gostamos de partilhar espaços e momentos e memórias. Mas, não está fácil porque as nossas vidas não estão actualmente destinadas a promover e proporcionar tempo para esses momentos. Entre vidas profissionais muito absorventes, horas gastas no trânsito das cidades e outras formas funestas de perda de tempo, o que sobra? Pouco. Muito pouco.
Resta-nos resistir e lutar para termos tempo de qualidade para aquilo que for mais importante. Para conversar, para estar com os amigos ou com as pessoas amadas. Para caminhar e pensar. Para usufruir dos dias e dos espaços que ainda vamos tendo.
E, por falar em espaços, uma palavra para as autarquias que, um pouco por todo o lado, recuperam espaços que estavam degradados e constroem jardins, ciclovias, parques infantis, espaços para exercício físico, colocam cadeiras para que as pessoas possam estar e conversar. 
No governo das cidades, algumas autarquias estão a compreender e a actuar para devolver o espaço público às pessoas. Quando isso acontece, na esmagadora maioria dos casos, a resposta é incrível. As pessoas voltam à rua, voltam a ter o prazer de pequenas coisas: brincar com os filhos, passear, namorar, sentar e conversar. Isso é um bom sinal. 
Agora, só falta deixarmos o telemóvel em casa. Experimentemos. Não há-de ser assim tão difícil.
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in Jornal Tornado  (15/7/2018)

Dos Poderes

«Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Só há liberdade a sério quando houver 
A paz, o pão 
habitação
saúde, educação 
Só há liberdade a sério quando houver 
Liberdade de mudar e decidir.»

Sérgio Godinho

1. POLÍTICOS
De que falamos quando falamos de política? Nos nossos dias, tanto em Portugal como no mundo de uma forma geral, não nos ocorrerá nada de muito positivo. Infelizmente, pois o exercício da Política devia ser uma tarefa nobre, executada com rigor, transparência, honra, sensatez, coerência e princípios. 
Isto é algo de muito básico e devia ser o fundamento do exercício do Poder nos seus diversos órgãos, de uma simples Junta de Freguesia à Presidência da República. Mas, como bem sabemos, estamos longe (mesmo muito longe...) deste ideal. 
Temos, naturalmente, excepções mas a verdade é que o afastamento dos detentores de cargos políticos dos cidadãos é uma realidade. E, aqui e ali, surge uma outra forma de engano: o líder populista, que jura ir ser diferente e estar junto do seu Povo. Por seu turno, o povo esse está afastado e descrente pois os mecanismos da sua representação política são limitados (quando muito, um voto nas urnas de 4 em 4 anos...). 

2. RELIGIOSOS
De que falamos quando falamos de religião? Falamos de crença, de fé, de paz, de comunhão de ideais e de busca de uma dimensão existencial muito para além da vida terrena. Mas, infelizmente, temos muitas vezes intolerância e manifestações de fanatismo, de ódio e de violência. A religião, ou as religiões, em vez de promoverem a paz e a concórdia são hoje activadoras de conflitos e de guerras, de atentados e de mortes. Em vez de escolher uma igreja para partilhar uma vida e um ideal, muitos saem desse local para desencadear o mal.
E esta situação parece piorar de dia para dia. Temos, claro, excepções mas nem sempre conseguem mudar a situação e, quem sabe, podem mesmo ser engolidos pela máquina. Podemos dizer que o Papa Francisco é diferente mas, certamente, é insuficiente. 
Infelizmente.

3. CONDICIONADOS
Nestes dias e neste tempo em que vivemos, são muitos os desafios. São imensos os riscos e os perigos. E tudo está a ocorrer num mundo em mudança vertiginosa agudizando a(s) incerteza(s).
A nossa vida, assente em salutares princípios que conhecemos e julgávamos consolidados há mais de 50 anos, está em causa. 
As causas são várias mas, no fundo, estamos perante um forte e multifacetado ataque organizado à democracia, à tolerância, ao Estado Social, ao direito à diferença, à liberdade de expressão e de imprensa. Estamos perante sérias tentativas de restrição de direitos humanos básicos como o direito à saúde, à educação, a um emprego e a uma reforma digna. Estamos perante a tentativa de destruição do nosso modo de vida com a “normalização” das desigualdades, a “banalidade” das violências, a “inevitabilidade” do retrocesso e a “urgência” de se tomarem medidas reguladoras que baixem as expectativas.
Mas tudo isto não passa de uma ilusão que visa, em primeiro lugar, estabelecer que o verdadeiro poder continue a ser o poder económico e o poder dos interesses. E, nesta batalha, os aliados que devíamos ter do nosso lado estão cada vez mais ausentes ou inoperantes.
Podíamos pensar que os nossos legítimos representantes políticos nos defendessem e lutassem pelos nossos interesses. Podíamos rezar e ter fé.
Infelizmente, tudo isso vem demonstrando ser um embuste. Estamos condicionados, somos manietados, somos manipulados e, frequentemente, perdemos poder. Muitas vezes sem sequer termos noção disso mesmo

4. DECIDIDOS
Está na hora de os Cidadãos retomarem, em suas mãos, o poder. Nunca foi, não é e nunca será fácil. Mas, não podemos esquecer: nós temos um poder. O poder de decidir, de agir e de contribuir para a mudança global. 
Podemos entregar o nosso destino nas mãos de outros. Ou podemos decidir e contribuir para a mudança. Podemos começar hoje.
Maio/2018
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Publicado no Nº 6 da revista "Sem Equívocos"

POR-TU-GAL! POR-TU-GAL!

Agora que já fomos campeões europeus e estamos, novamente, numa fase final do Campeonato do Mundo, a recordação desse jogo é ainda mais significativa: em 1974, um empate sabia a vitória e nós vivíamos esse resultado com orgulho.

Ano: 1974

Em 20 de Novembro de 1974, assisti na televisão a um jogo de futebol transmitido a partir do Estádio de Wembley: Inglaterra-Portugal. Resultado final: Zero-Zero. Lembro-me como fiquei empolgado com um… empate que considerei um feito, sobretudo jogando a selecção nacional em casa do adversário.
Agora que já fomos campeões europeus e estamos, novamente, numa fase final do Campeonato do Mundo, a recordação desse jogo é ainda mais significativa: em 1974, um empate sabia a vitória e nós vivíamos esse resultado com orgulho.
Hoje, ambicionamos muito mais. Passados 44 anos, queremos ser campeões do mundo e no discurso oficial dizemos: “não somos favoritos mas somos candidatos”.

Ano: 1998

Em 1998, construímos e vivemos um momento alto do nosso século XX: a Expo’98. Foram meses em que provámos, em primeiro lugar a nós próprios, que tínhamos evoluído e muito. Que podíamos ambicionar ser uma peça importante no mundo apesar da nossa reduzida dimensão territorial. Que éramos capazes de organizar (e viver) uma exposição de nível mundial.
Desses meses guardo uma memória viva e alargada. Mas, recordo um momento que durou escassos minutos mas que me marcou pelo seu significado simbólico e que ultrapassou em muito o momento.
No dia do encerramento da Expo’98, estiveram no recinto cerca de 300 mil pessoas. Com um ambiente feliz mas já nostálgico daqueles meses que queríamos perpetuar, fomos até ao espaço em que, todos os dias, tinha lugar um espectáculo pirotécnico no rio Tejo. Nesse último dia, como momento final que se queria memorável, o espectáculo foi ainda mais intenso. Terá durado uns dez minutos e, no fim, aconteceu algo de mágico, espontâneo e imediato. Uns brevíssimos segundos depois do fim do espectáculo, milhares e milhares de pessoas gritaram a plenos pulmões: Por-tu-gal! Por-tu-gal!
Por uns momentos, fomos um povo unido, mostrámos o nosso orgulho e vibrámos com o imenso sucesso que nós, Portugueses, tínhamos construído e de que a Expo’98 tinha sido uma excelente exemplo. Nesse dia, estivemos no futuro que queríamos viver.

Ano: 2004

O ano em que organizámos o Campeonato Europeu de Futebol e tivemos uma das maiores desilusões da vida: perder no Estádio da Luz.  Tinham passado 30 anos sobre o jogo em Wembley.
Nesse ano mágico, as bandeiras nacionais e uma imensa alegria desceram às ruas de todo o país. Jogo após jogo, mais entusiasmo e mais resultados. Dia após dia, mais e mais portugueses nos sentíamos.
Tal como na Expo’98, estivemos além do nosso tempo, desafiámos o triste fado das vitórias morais. Perdemos? Sim, perdemos a final. Mas, provavelmente, ganhámos muito mais do que isso: auto-estima, determinação e vontade.

Ano: 2018

Nesta crónica, ao relembrar estes momentos quis, sobretudo, sublinhar que nós podemos ser o povo do pessimismo, que não valoriza o que tem de melhor. O povo e o país que ainda tem muito que melhorar, crescer e desenvolver.
Mas, é bom que não esqueçamos estes (e vários outros) momentos em que nos transcendemos. E em que tivemos muitas pessoas de que só nos podemos orgulhar. Recordo o nome de uma dúzia de portugueses que nos fazem sentir da dimensão do mundo e do tamanho da ambição que quisermos ter: José Saramago e Gonçalo M. Tavares; Siza Vieira e Souto Moura; Fernando Gil e Eduardo Lourenço; Carlos Lopes, Rosa Mota, Cristiano Ronaldo e José Mourinho; Júlio Pomar e Nadir Afonso.
E recordo ainda o 25 de Abril que nos trouxe a liberdade e muito mais.
Quando, hoje, ouvimos (e cantamos) o hino nacional sabemos que podemos perder o jogo. Mas, ao contrário de 1974, sobretudo sabemos que vamos jogar para ganhar. O futebol também é isso mesmo: o rosto de um povo forte com uma história de centenas de anos. E com futuro, apesar dos tempos difíceis que vivemos e dos inúmeros problemas que continuam por resolver.

(in Jornal Tornado, 15/06/2018)

Da Privacidade/2: Manual de Instruções

1.
O RGPD-Regulamento Geral de Protecção de Dados vai entrar em vigor em 25 de Maio com o objectivo de introduzir algumas regras mais firmes salvaguardando a privacidade dos nossos dados pessoais.
Trata-se de uma boa notícia e, mesmo numa época de devassa ou exposição generalizada, será uma oportunidade para colocarmos alguma disciplina nas relações com empresas e outras organizações.
De uma forma violenta e despudorada, são inúmeras as situações em que nos pedem (por vezes... exigem) que ofereçamos os nossos dados para que, depois, de forma ainda mais inusitada nos entupirem a caixa de mensagens de correio electrónico ou nos telefonarem a vender este mundo e o outro.
Como profissional da área de marketing que sou há mais de 30 anos, sempre me insurgi contra essas práticas que, sob uma pretensa capa da “agressividade comercial”, mais não revelavam do que um absoluto desrespeito pelos seus clientes ou potenciais clientes.
Acontece mesmo que, muitas vezes, nem sequer eram acções comunicacionais inteligentes. Muitas vezes me interroguei sobre que sentido tem fazer uma campanha tendo o objectivo de me vender o serviço da Empresa X do qual eu... já sou cliente... Somos constantemente bombardeados por iniciativas semelhantes porque os nossos dados andam por aí, sem controlo, sem o nosso conhecimento e sem o nosso consentimento. 
2.
A partir de 25 de Maio, há dois princípios básicos que têm de ser cumpridos: primeiro, os dados pessoais são nossos e não das organizações comerciais ou outras que os solicitam e a quem nós os disponibilizamos com um fim específico; segundo, tem de ficar claro para que fim estamos a ceder os nossos dados. Ou seja, eu cedo os dados para receber uma factura e efectuar um contrato de um serviço. Mas isso não implica automaticamente que eu estou a ceder os meus dados para ser contactado para vender outros serviços.
O RGPD é muito mais completo e é muito mais específico. Mas só estas duas regras são já um avanço enorme.
3.
Posto isto, como podemos e devemos legitimamente resistir a organizações que abusam sistematicamente dos nosso direitos e não cumprem a lei. Há um conjunto de acções que podemos e devemos fazer. 

Vejamos dois exemplos:
  • Várias empresas estão já a enviar mensagens solicitando o nosso consentimento para continuarem a mandar mensagens. O que fazer? Não dar esse consentimento e recusar esse pedido. Se, por acaso, essa mesma empresa nos continuar a enviar mensagens não solicitaras devemos de imediato apresentar queixa formal na Comissão Nacional da Protecção de Dados (CNPD). E por queixa formal estamos a falar de uma carta identificando a empresa em causa e o abuso de que estamos a ser vítimas. Será obrigação desta entidade abrir um inquérito e aplicar as sanções inerentes. Concluindo: se não temos interesse em estar na órbita comercial de uma empresa, devemos rejeitar e não dar o consentimento.
  • Suponhamos que vamos realizar um contrato e prestação de serviços com uma empresa e o diligente funcionário que nos atende exige uma infindável lista de dados. Podemos e devemos perguntar: para que fim são os dados que me estão a solicitar? Que uso vai ser dado no futuro? De que forma a boa prestação do servico está dependente do fornecimento desses dados? Concluindo: se achamos excessivos os pedidos de dados, podemos, em primeiro lugar, não subscrever o serviço e procurar uma alternativa. E podemos, depois, apresentar queixa na mesma entidade para que a empresa seja auditada e seja verificada, à luz dos princípios do RGPD, a necessidade efectiva dos dados solicitados.
4.
A cidadania tem de ser exercida diariamente para que os nosso direitos e os nosso deveres sejam cumpridos na íntegra. A pressão e as manobras de empresas e outras organizações para que o RGPD não seja cumprido serão imensas. Infelizmente, apesar de narrativas simpáticas, muitas empresas e outras organizações não desenvolvem a sua actividade de forma respeitadora da lei. Infelizmente, uma postura ética no marketing ainda não será a predominante. Infelizmente, as violações continuarão. Mas não nos podemos esquecer de um facto simples: nós, cidadãos, temos o poder de dizer não e temos uma lei que nos protege. Assim sendo, se nos demitirmos da nossa cidadania e dos nossos direitos, estamos a dar um contributo para que empresas e outras organizações sejam beneficiadas nas suas más práticas. 
Uma vez mais, em primeiro lugar, depende de nós. Podemos agir. Devemos agir.

15/Maio/2018

Da Privacidade/1

1.
O comércio de dados pessoais, o seu uso indiscriminado e a vulnerabilidade dos cidadãos perante as organizações empresariais (ou outras) deviam ser um dos temas essências da agenda e do espaço mediático uma vez que é uma situação que nos afecta a todos.
O recente sobressalto com os mais de 50 milhões de perfis do Facebook que foram acedidos ilegalmente são apenas um das faces visíveis de uma triste é preocupante realidade.
A verdade é que, um pouco por todo o lado, inúmeras empresas e outras organizações recolhem, tratam e utilizam os nossos dados sem nosso consentimento e sem nosso conhecimento. As desculpas podem ser várias e algumas delas poderiam até fazer sentido de forma objectiva. O principal problema é que os nossos dados são usados para imensos fins aos quais somos alheios e para os quais, se nos perguntassem, não permitiríamos que fossem usados.
2.
O Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD) de que agora tanto se fala não é o elixir milagroso para resolver esta verdadeira doença da sociedade cada vez mais digitalizada em que vivemos, compramos, estudamos ou trabalhamos.
Como regulamento traz um conjunto de regras baseadas do que deveria ser o bom senso. O que acontece é que, em todos os processos que envolvam lucros potenciais e negócios, a regulação do mercado dificilmente existe. Seria de esperar que a ética empresarial impedisse as empresas de abusarem da nossa boa fé e/ou da nossa vulnerabilidade formal.
Se algumas organizações o fazem, há muitas que o ignoram e o contornam de uma forma ilegítima. 
Neste contexto, o RGPD pode ser uma oportunidade para que os cidadãos que se sintam lesados no direito à sua privacidade tenham um instrumento de acção para a proteger. Por isso, este regulamento é uma excelente oportunidade de os cidadãos poderem pensar na questão e poderem exigir respeito por um bem tão precioso como é a privacidade.
O que está estabelecido é que, agora, não só é possível condicionar (ou até impedir) o uso abusivo e circulação indiscriminada dos nossos dados. Será possível fazer com que as organizações que não cumpram a lei sejam punidas. Mas, como em muitas outras situações, isso só acontecerá se houver uma fiscalização eficaz que tenha meios para vigiar, investigar, avaliar e, se necessário, punir. Entre nós, infelizmente, não é esse o cenário habitual. 
Esta é uma oportunidade importante para que a cidadania prevaleça sobre o lucro fácil e desonesto. E somos nós os primeiros que teremos de agir.
15/Abril/2018

Com Fernando Pessoa, Criar e Desenvolver a Marca Portugal

1.
A imagem do destino Portugal tem acompanhado a melhoria permanente da imagem do nosso país.
No entanto, ainda está bastante aquém daquilo que poderá ser feito. Apesar de algum nacional-pessimismo, nós temos um país maravilhoso em muitas dimensões: povo aberto e acolhedor; deslumbrante e variada paisagem; recursos naturais imensos e clima ameno; cidades interessantes com espaços de cultura e de espectáculo; riquíssima e original gastronomia; património, golfe, termas, museus; eventos de dimensão internacional. Enfim uma oferta única e invejável.

2.
Acontece que, apesar das melhorias significativas, ainda não conseguimos potenciar toda a riqueza que possuímos em termos de comunicação de marketing a nível do mercado global. Temos uma comunicação muito fragmentada em que cada protagonista está mais preocupado em promover apenas a sua região (ou cidade, ou evento, etc.) em vez de termos uma aposta nacional e global.
Promovemos o Algarve, o Alentejo ou o Norte. Promovemos uma feira medieval ou um festival de música. Promovemos uma praia ou umas termas. Mas o que verdadeiramente nos interessaria era promover Portugal na sua inteira dimensão. Fazemos acções dispersas e nem sempre coordenadas o que não é nada recomendável atendendo aos parcos recursos de que dispomos.

3.
Onde está o problema: na falta de uma visão de médio-longo prazo e de uma estratégia nacional de marketing. Falta, designadamente, o grande Portal de Comunicação sobre Portugal que, de forma ágil e coordenada, promova o destino como um todo (e não, de forma redutora, a região A ou o sítio B…).
Temos de construir de forma convicta e coerente um posicionamento claro como destino de grande qualidade, com uma enorme e diversificada oferta em muitos domínios. Algo do género: “Portugal-País Plural, muitos destinos num só” associando esta pluralidade a Fernando Pessoa. Na sua imensa diversidade e com os seus heterónimos, transformou-se num dos mais ricos, densos, conhecidos, admirados e completos autores do século XX.
Pensemos nesta linha de comunicação e posicionamento aplicada a gastronomia, paisagem, actividades lúdicas, património, produtos regionais, cidades e espaços urbanos, golfe, sol e praias, etc. Conhecemos nós algum destino no mundo que, num espaço tão reduzido, ofereça tanta e tão forte pluralidade?

Setembro/2013
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Publicado em www.publituris.pt

Da Verdade e da Justiça

«Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.»
Albert Camus

1. DESCONFIADOS
Os casos na Justiça sucedem-se em Portugal e são evidentes vários sinais de desconforto quando se fala da sua aplicação concreta. Ficamos espantados com arquivamentos inesperados. Lamentamos os prazos excessivos que os processos demoram até chegarem a tribunal. Ficamos baralhados com sentenças arcaicas e imorais como algumas que foram tomadas sobre casos de violência doméstica.
Ambicionamos nunca termos de nos sujeitar aos tortuosos caminhos da investigação ou da suspeita.
Em síntese, confiamos pouco (ou nada?) na Justiça portuguesa e no seu trabalho.
E o problema principal é que, sem sermos juristas especializados, a realidade que surge relatada na comunicação social ou em situações que vamos conhecendo no nosso dia a dia, apenas confirmam os nossos receios e as nossas dúvidas.

2. INSATISFEITOS
Numa sociedade livre, queremos que haja justiça. Não só a justiça administrada pelos tribunais mas uma justiça mais ampla que permita que todos tenham as mesmas oportunidades em muitos domínios: economia, sociedade, educação, emprego, saúde ou bem-estar.

3. DECIDIDOS
Neste quadro algo negro e desolador, poderemos ter uma atitude exigente ou teremos de aceitar resignar que a Justiça não funciona? Teremos de nos resignar a que este pilar da sociedade seja um pilar em ruínas (ou, no mínimo, em decadência)? Poderemos lutar de alguma forma para alterar o miserável estado de coisas a que se chegou? Valerá a pena acreditar que, enquanto cidadãos, temos uma palavra a dizer?
Na minha humilde opinião, é tempo de não nos resignarmos, mas de nos indignarmos. É tempo de dizer “basta”!
Se calarmos ou se olharmos para o lado, não podemos depois dizer que não é connosco, que a culpa é dos outros. Seremos cúmplices. A opção é nossa, nós podemos decidir de que lado queremos estar e lutar. E estar do lado da Justiça é, em primeiro lugar, estar do lado da Liberdade.

Fevereiro/2018
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Publicado no Nº 5 da revista “Sem Equívocos”

O Nosso Tempo

“Todo o homem é mais parecido com a sua época do que com o seu pai.”
Provérbio Árabe

1. APRESSADOS
O nosso tempo é, sem dúvida, um tempo em que a rapidez se tornou regra: queremos tudo agora, já ou de imediato. A pressa tomou conta de tudo, da comida (fast-food) à velocidade a que acedemos à Internet. Tudo se mede em minutos ou mesmo em segundos. E quem se atrasa está (parece estar...) perdido.
A velocidade a que estamos a evoluir é excelente. No entanto, esta mesma velocidade está a retirar-nos o prazer de estar e de ser. Se tudo é tão rápido, não temos sequer tempo para ver ou sentir e, muito menos, saborear. Não temos tempo para preservar a memória (deixamos que um disco externo se encarregue disso).
Esse é o nosso tempo e já pouco podemos fazer. A não ser resistir e ter a capacidade de abrandar o ritmo, de esperar um pouco, de andar mais devagar ou de recusar comer uma refeição em pé. São gestos simples e que dependem apenas de nós.

2. LIGADOS
O nosso tempo é, sem dúvida, um tempo em que não conseguimos estar desligados. Estamos a olha para o telemóvel centenas de vezes por dia. Acedemos dezenas de vezes ao Facebook. Respondemos a inúmeras mensagens de texto ao mesmo tempo que conduzimos. A nossa aplicação de email interrompe-nos constantemente com a chegada de novas mensagens. Numa conversa, se surge uma dúvida sobre uma data ou um lugar, já não apelamos à memória e procuramos na Internet. E podia continuar a desfiar um conjunto imenso de situações em que já não conseguimos estar desligados.
Esse é o nosso tempo e já pouco podemos fazer. A não ser resistir e ter a capacidade de deixar o telefone em silêncio durante uma parte do dia, ajustar uma hora para consulta de informação online ou guardar uns momentos para estar bem (lendo um livro, passeando, conversando). São gestos simples e que dependem apenas de nós.

3. PARECIDOS
O nosso tempo é, sem dúvida, um tempo em que somos mais globais e em que cada vez mais estamos sujeitos a influências e a contextos muito semelhantes, designadamente no acesso a informação. Estamos, também muito expostos a verdadeiras máquinas de comunicação de origens diversas mas sempre com a mesma intenção: controlar o que sabemos e, depois, influenciar o que pensamos e como pensamos.
Pior ainda se pensarmos que muita da informação que recebemos ou a que acedemos já está condicionada por algoritmos de motores de pesquisa e outras formas de condicionamento. Daí resulta que estejamos cada vez mais parecidos. Com mais acesso a informação mas, provavelmente, com menos liberdade de escolha. Provavelmente, o excesso de informação de que somos vítimas em vez de ser benéfico pode talvez ser prejudicial.
Como temos tanta informação para ler e reflectir, poderá dar-se o caso de com essa ilusão de liberdade de acesso a informação nos escape que estamos condicionados e manipulados.
Claro que podemos também produzir informação (nunca foi tão fácil escrever e publicar). Podemos escolher fontes que sejam mais credíveis (nunca foi tão fácil aceder a milhões de ficheiros de múltiplas procedências). Podemos fazer tudo isso. Mas continuamos a abrir a caixa de pesquisa do Google para o que devia ser um ponto de partida numa pesquisa cuidadosa, aprofundada e criteriosa.
Mas, como estamos apressados e vivemos permanentemente ligados, muitas vezes (ou sempre?) não temos tempo ou já nem nos damos a esse trabalho...
Esse é o nosso tempo e já pouco podemos fazer. A não ser resistir e ter a capacidade de pesquisar diversas fontes e avaliar a sua credibilidade, ler opiniões contraditórias, explorar factos mesmo os que não confirmam as nossas convicções, estar alerta para as manipulações que nos entram pela porta dentro.
Numa palavra: pensar. Numa atitude: ter dúvidas. Num princípio: ser exigente.
São gestos simples e que dependem apenas de nós.

Novembro/2017
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Publicado no Nº 4 da revista "Sem Equívocos"

Ser ou não Ser Digital: O Paradoxo de uma Ilusão

Como que por milagre, a revolução do digital invadiu as nossas vidas e infiltrou-se nos negócios. Acontece que, tal como nas nossas vidas, a componente digital é muito importante mas... não resolve tudo nem deve ser a essência da estratégia das empresas.
Esse é o paradoxo que temos de resolver urgentemente: mais do que impor o digital, temos de continuar focados nos clientes, no negócio. E integrar, de forma adequada e dinâmica, as múltiplas ferramentas digitais de que felizmente dispomos.


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Quando comecei a trabalhar, ainda se usava telex e o envio de cartas a clientes era o meio de comunicação mais comum. A empresa tinha ainda uma ou duas pessoas cuja função era dactilografar documentos usando as máquinas de escrever. As fichas de clientes estavam guardadas em gavetas, por ordem alfabética, e eram actualizadas à mão. As análises das vendas eram feitas com recurso a calculadoras e objecto de relatórios pacientemente dactilografados.
As notas de encomenda eram redigidas em papel com cópia obtida com folha de papel químico. As encomendas de produtos eram separadas manualmente no armazém da empresa e distribuídas pela sua frota.
Pouco tempo depois, surgiu um aparelho que revolucionou as comunicações empresariais: o fax que, em poucos anos, passou a ser o meio de comunicação por excelência pela sua rapidez e fiabilidade.
As comunicações telefónicas eram baseadas exclusivamente na rede fixa e era comum, se estivessemos fora do nosso local de trabalho, utilizar uma cabine telefónica ou um telefone público disponível na maioria dos cafés e de outros estabelecimentos comerciais.
Esta descrição não fala de um mundo do século XIX... Fala da actividade comercial comum no final dos anos 80 do século XX.
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Uns anos mais tarde, em alguns casos ainda na década de 1980, os computadores pessoais começam a entrar em grande força nas empresas de média dimensão (e, um pouco mais tarde, nas micro e nas PME’s). Primeiro substituindo as máquinas de escrever com os programas de processamento de texto e, logo depois, com os programas ditos de “facturação” que foram os precursores dos programas de gestão comercial. Pouco depois, uma mudança ainda mais radical e estrutural: a chegada da Internet e do sistema de correio electrónico ao mundo empresarial. E, finalmente, o aparecimento dos primeiros telemóveis.
Mais recentemente, a massificação/democratização do acesso à internet e o seu uso intensivo: as redes sociais, os blogues, as plataformas colaborativas ou o acesso a inúmeros conteúdos (formativos, informativos, etc.).
E assim, no espaço de pouco mais de 10/15 anos, as nossas vidas deram uma volta completa. A mudança foi tão rápida e tão intensa que, ainda mal demos por ela, e já estávamos completamente imersos na revolução digital: na vida pessoal, na actividade profissional e na gestão empresarial. Hoje, viver sem recurso a meios digitais é impossível (ou quase...). No mundo das empresas, vemos que (quase) todas estão cada vez mais dependentes da digitalização dos seus processos e muitas assentam a sua actividade em modelos de negócio exclusivamente digitais e online.
3.
Neste contexto, muitos empresários e gestores decidem investir no marketing digital e na presença na Internet: desde o simples website até sofisticadas lojas de comércio electrónico. E ainda: a presença nas redes sociais, o email marketing, a digitalização crescente dos processos comerciais (smartphones e tablets nas mãos das equipas de vendas), a introdução de soluções de CRM, comunicação cada vez mais personalizada (as Apps no bolso do cliente a receber notificações/promoções/informações específicas), os slideshows muito vistosos, e-newsletters, os vídeos no You Tube e... todo um mundo infidável de soluções disponíveis e cada vez mais acessíveis em termos de investimento.
4.
Feita esta descrição, podemos dizer que nunca foi tão fácil nem nunca foi tão barato desenvolver estratégias e programas de marketing, de comunicação ou de fidelização de clientes.
Contudo, esta realidade teve/tem, paradoxalmente, um efeito muito nocivo de, por vezes, criar uma ilusão: acreditamos que, se formos digitais, conseguimos ser mais competitivos. Ora isso não é verdade. As tecnologias, por mais sofisticadas que sejam, são apenas instrumentos que podemos activar em benefício dos nossos clientes e dos nossos negócios. Mas, em momento algum, são uma solução milagrosa para o êxito de uma empresa e para a sustentabilidade do seu projecto.
A perigosa ilusão do digital é pensarmos que, por exemplo, sendo tão fácil comunicar com 100 mil potenciais clientes por email, podemos esquecer as outras dimensões do nosso negócio: a qualidade de produtos/serviços; a força da nossa imagem; a eficácia da nossa mensagem; o poder da nossa real proposta de valor que nos propomos entregar; a vantagem competitiva sobre os nossos concorrentes; a capacidade logística para entregar o produto ou prestar o serviço no momento certo e no local adequado; a rapidez dos processos; a simpatia e a capacidade de serviço ao cliente dos nossos colaboradores; a capacidade de acompanhar as tendências e/ou antecipar as necessidades dos consumidores; a capacidade de desenvolver estratégias de fidelização de clientes fortes baseados em processos de gestão personalizada da relação com os clientes em todas as dimensões (e não só em instrumentos digitais massificantes), entre muitos outros.
5.
O desafio actual dos empresários, dos gestores e das suas equipas é, cada vez mais, a capacidade de eliminar este paradoxo gerado pela ilusão digital: a base do sucesso de uma empresa reside (como sempre residiu...) nas pessoas e nas suas competências, na visão e na estratégia, nos processos, no serviço, na capacidade de proporcionar verdadeiras experiências, na capacidade de encantar os clientes.
Nos anos 70 do século passado ou nos dias de hoje, o foco tem de ser sempre o cliente. Podemos servi-lo ao balcão de uma pequena loja de comércio tradicional ou num sofisticado sistema digital de gestão de encomendas online. Mas, no final do dia, o que contará sempre é a sua satisfação com a nossa empresa, a sua vontade de voltar a comprar o nosso produto e a possibilidade de nos referenciar (e recomendar) a outros consumidores.

Não podemos obviamente ignorar a dimensão digital, isso seria um erro colossal. Mas... não alimentemos ilusões: a essência de qualquer negócio (grande, médio ou pequeno) continua a ser a sua capacidade de procurar, compreender, conquistar, satisfazer e fidelizar clientes.

Fevereiro/2016
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Publicado na Revista do Candal Park.